terça-feira, 24 de janeiro de 2012

DA FELICIDADE

Quanta vezes a gente, em busca da ventura,
Procede tal e qual o avozinho infeliz:
Em vão, por toda a parte, os óculos procura
Tendo-os na ponta do nariz!


Mário Quintana

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Chapeuzinho Amarelo


Era a Chapeuzinho Amarelo.
Amarelada de medo.
Tinha medo de tudo, aquela Chapeuzinho.
Já não ria.
Em festa, não aparecia.
Não subia escada, nem descia.
Não estava resfriada, mas tossia.
Ouvia conto de fada, e estremecia.
Não brincava mais de nada, nem de amarelinha.
Tinha medo de trovão.
Minhoca, pra ela, era cobra.
E nunca apanhava sol, porque tinha medo da sombra.
Não ia pra fora pra não se sujar.
Não tomava sopa pra não ensopar.
Não tomava banho pra não descolar.
Não falava nada pra não engasgar.
Não ficava em pé com medo de cair.
Então vivia parada, deitada, mas sem dormir, com medo de pesadelo.
Era a Chapeuzinho Amarelo…
E de todos os medos que tinha
O medo mais que medonho era o medo do tal do LOBO.
Um LOBO que nunca se via,
que morava lá pra longe,
do outro lado da montanha,
num buraco da Alemanha,
cheio de teia de aranha,
numa terra tão estranha,
que vai ver que o tal do LOBO
nem existia.
Mesmo assim a Chapeuzinho
tinha cada vez mais medo do medo do medo
do medo de um dia encontrar um LOBO.
Um LOBO que não existia.
E Chapeuzinho amarelo,
de tanto pensar no LOBO,
de tanto sonhar com o LOBO,
de tanto esperar o LOBO,
um dia topou com ele
que era assim:
carão de LOBO,
olhão de LOBO,
jeitão de LOBO,
e principalmente um bocão
tão grande que era capaz de comer duas avós,
um caçador, rei, princesa, sete panelas de arroz
e um chapéu de sobremesa.
Mas o engraçado é que,
assim que encontrou o LOBO,
a Chapeuzinho Amarelo
foi perdendo aquele medo:
o medo do medo do medo do medo que tinha do LOBO.
Foi ficando só com um pouco de medo daquele lobo.
Depois acabou o medo e ela ficou só com o lobo.
O lobo ficou chateado de ver aquela menina
olhando pra cara dele,
só que sem o medo dele.
Ficou mesmo envergonhado, triste, murcho e branco-azedo,
porque um lobo, tirado o medo, é um arremedo de lobo.
É feito um lobo sem pelo.
Um lobo pelado.
O lobo ficou chateado.
Ele gritou: sou um LOBO!
Mas a Chapeuzinho, nada.
E ele gritou: EU SOU UM LOBO!!!
E a Chapeuzinho deu risada.
E ele berrou: EU SOU UM LOBO!!!!!!!!!!
Chapeuzinho, já meio enjoada,
com vontade de brincar de outra coisa.
Ele então gritou bem forte aquele seu nome de LOBO
umas vinte e cinco vezes,
que era pro medo ir voltando e a menininha saber
com quem não estava falando:
LO BO LO BO LO BO LO BO LO BO LO BO LO BO LO BO LO BO LO BO LO
Aí, Chapeuzinho encheu e disse:
"Pára assim! Agora! Já! Do jeito que você tá!"
E o lobo parado assim, do jeito que o lobo estava, já não era mais um LO-BO.
Era um BO-LO.
Um bolo de lobo fofo, tremendo que nem pudim, com medo de Chapeuzim.
Com medo de ser comido, com vela e tudo, inteirim.
Chapeuzinho não comeu aquele bolo de lobo, 
porque sempre preferiu de chocolate.

Aliás, ela agora come de tudo, menos sola de sapato.Não tem mais medo de chuva, nem foge de carrapato.
Cai, levanta, se machuca, vai à praia, entra no mato,
trepa em árvore, rouba fruta, depois joga amarelinha,
com o primo da vizinha, com a filha do jornaleiro,
com a sobrinha da madrinha
e o neto do sapateiro.
Mesmo quando está sozinha, inventa uma brincadeira.
E transforma em companheiro cada medo que ela tinha:
O raio virou orrái.
Barata é tabará.
A bruxa virou xabru.
E o diabo é bodiá.
                                 FIM
(Ah, outros companheiros da Chapeuzinho Amarelo:
o Gãodra, a Jacoru, o Barãotu, o Pão Bichôpa… e todos os tronsmons).

Chico Buarque

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

O Dedo Duro!

O olhar para si mesmo é o primeiro passo para a felicidade.
Você já parou para se ver hoje?
Não falo se olhar no espelho, num ato cotidiano, enquanto escova seus dentes ou para ver se sua roupa está adequada para o seu dia. Sim, isso é importante, mas, quando pergunto se você parou para se ver hoje o que quero que você se responda (e não a mim, acreditem!) é se você se preocupou consigo mesmo.
Você se deu bom dia? Você pensou no que te faz feliz, e na forma como iria conduzir suas horas hoje? Você já distribuiu ao menos um sorriso ao seu companheiro, filho, cachorro, vizinho, ou para o motorista do carro ao lado enquanto você está no trânsito?
Ou será que você já despertou com aquele dedo indicador duro apontado para frente, como um revólver moral pronto a disparar a primeira bala de razão?
Tenho visto muitas dessas armas por aí, e fato, são tão letais quanto as de fogo!
O primeiro grande ato de violência que o tal dedo indicador duro apontado para frente faz é nos tornar incapazes de olhar para nós mesmos... numa ótica distorcida, o dedo nos faz achar que conhecemos o mundo, e entendemos dele, mas na verdade, o que ele está fazendo mesmo é você se esquecer de conhecer e entender o mais importante: você mesmo!
E vale lembrar que sem o entendimento de si mesmo, todo o resto é apenas uma ilusão.
Veja a diferença...
Quando seu dedo indicador duro está apontado para a frente: o seu namorado te fez triste, a sua melhor amiga brigou com você, só te critica e você não vai mais perder seu tempo com essa pessoa que não quer te ouvir, seu filho é um adolescente rebelde que não dá valor a nada, seu chefe é um mal humorado, o BBB é um programa que degrada a inteligência humana, o vizinho ouve uma música horrorosa que você não suporta, um cara lá nos Estados Unidos que você não faz ideia de quem seja e que entrou para o Guinness é um idiota porque encheu 23 bexigas com o nariz, o político fulano de tal é corrupto, o ator famoso da novela faz um Gay mas na vida real é contra beijo gay na novela e isso é um absurdo e contraditório, as pessoas estão loucas e você não entende como tá tudo errado no mundo!
Viremos essa poderosa arma para nós mesmo! Óh, um suicídio??? Não... uma libertação!
Quando o dedo indicador duro está apontado pra ninguém mais do que pra você mesmo: o meu namorado pode sim ter agido errado, mas foi eu quem permitiu, e isso não vai mais acontecer. Minha melhor amiga quis dizer coisas mas não soube se expressar. Será que eu consigo agir diferente dela para continuarmos cúmplices como sempre, afinal, somos melhores amigas porque somos muito parecidas! Meu filho está numa ebulição de hormônios, eu já passei por isso! Meu chefe tem muita responsabilidade, será que eu cumpro com tudo o que poderia fazer para que eu não seja mais uma preocupação? Quais são as minhas responsabilidades? O BBB é um programa que não me interessa, porque eu vou perder meu tempo falando sobre isso? Qual é a influência que isso tem na minha vida? Nenhuma! Então pronto. Mudo de canal. De novo Michel Teló, Vizinho? Tudo bem, deixa eu ocupar meu espaço com a música que eu gosto... vou ouvir Vivaldi. (Ou Metallica, ou Calcinha Preta... enfim, cada um com seu gosto!) Engraçado como as pessoas sentem prazer com coisas diferentes... eu jamais pensaria em encher bexigas com o nariz... será que eu consigo? Vai ser engraçado! O fulano de tal é corrupto mesmo... da próxima vez vou pesquisar quem é o cara em quem estou votando! Aquele ator fez uma declaração da qual eu não concordo, mas tudo bem, porque afinal de contas, é a minha opinião que me importa, e ele não faz parte da minha vida, bem como eu não faço parte da dele. Ele está representando um papel, não significa que o ser humano por trás daquele personagem deva ter a mesma opinião que eu. As pessoas estão loucas, como eu posso melhorar o mundo? O que eu posso fazer para não entrar nessa estatística?
Se você chegou até aqui, te proponho esse exercício.
Tente, por um só dia, um só, ver qual é a sua responsabilidade diante de uma situação ou pessoa antes de disparar uma crítica, um apontamento, uma reclamação. Tente por só um dia oferecer o seu melhor, de verdade, e receber o melhor que o outro tem para oferecer. Não espere nada de ninguém, espere de si mesmo. Ofereça um sorriso a quem você nem conhece, só porque você quer dar o seu melhor. Tente, por um só dia, não discutir sobre assuntos que não te interessam, e aproveitar esse tempo para fazer outra coisa que de fato te seja legal. Por um dia apenas doe o seu máximo, e receba o que puder. Dê esse primeiro passo!
Se ao fim do dia você não estiver se sentindo minimamente mais feliz, se nada tiver mudado, volte a viver da mesma forma como veio até aqui. Você não tem nada a perder!
Boa sorte!!

Ju Paié


quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

SEJA UM IDIOTA

A idiotice é vital para a FELICIDADE.
Gente chata essa que quer ser séria, profunda e visceral sempre. Putz!
A vida já é um caos, por que fazermos dela, ainda por cima, um tratado?
Deixe a seriedade para as horas em que ela é inevitável: mortes, separações, dores e afins. No dia-a-dia, pelo amor de Deus, seja idiota!
Ria dos próprios defeitos. E de quem acha defeitos em você. Ignore o que o boçal do seu chefe disse. Pense assim: quem tem que carregar aquela cara feia, todos os dias, inseparavelmente, é ele. Pobre dele. Milhares de momentos acabaram-se não pela falta de amor, dinheiro, sexo, sincronia, mas pela ausência de idiotice. Trate seu amor como seu melhor amigo, e pronto. Quem disse que é bom  dividirmos a vida com alguém que tem conselho pra tudo, soluções sensatas, mas não consegue rir quando tropeça? hahahahahahahahaha!…
Alguém que sabe resolver uma crise familiar, mas não tem a menor idéia de como preencher as horas livres de um fim de semana? Quanto tempo faz que você não vai ao cinema? É bem comum gente que fica perdida quando se acabam os problemas. E daí, o que elas farão se já não têm por que se desesperar? Desaprenderam a brincar. Eu não quero alguém assim comigo. Você quer? Espero que não.
Tudo que é mais difícil é mais gostoso, mas… a realidade já é dura; piora se for densa. Dura, densa, e bem ruim. Brincar é legal. Entendeu? Esqueça o que te falaram sobre ser adulto, tudo aquilo de não brincar com comida, não falar besteira, não ser imaturo, não chorar, não andar descalço, não tomar chuva. Pule corda! Adultos podem (e devem) contar piadas, passear no parque, rir alto e lamber a tampa do iogurte. Ser adulto não é perder os prazeres da vida – e esse é o único “não” realmente aceitável. Teste a teoria. Uma semaninha, para começar. Veja e sinta as coisas como se elas fossem o que realmente são: passageiras.
Acorde de manhã e decida entre duas coisas: ficar de mau humor e transmitir isso adiante ou sorrir… Bom mesmo é ter problema na cabeça, sorriso na boca e paz no coração!
Aliás, entregue os problemas nas mãos de Deus e que tal um cafezinho
gostoso agora? “A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios.
Por isso cante, chore, dance e viva intensamente antes que a cortina se feche”.
Arnaldo Jabor

domingo, 8 de janeiro de 2012

Entregar-se de voar

Voar.
Soltar-se de si
Deixar-se ir
ao vento.
Ouvi-lo
na sabedoria pura da entrega.
Flutuar em desamarras
Redefinir, redistribuir, reler, respirar.
Cair para deixar-se levar
Na completude de saber-se segura
Em vôo.
Ah os homens, tolos nós!
Tanto barulho ao levantar-se do chão.
Sem notar que a silenciosa ave
só bate as asas
nos detalhes de instantes
Em que o vento esquece de ensina-la
a deixar-s'e-le-var.
(Lenita Ponce)