quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

O apanhador de desperdícios.





"Uso a palavra para compor meus silêncios. 
Não gosto das palavras fatigadas de informar. 
Dou mais respeito às que vivem de barriga no chão,
tipo água, pedra, sapo. 
Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito às coisas desimportantes 

e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões. 
Prezo a velocidade das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença. 
Eu fui aparelhado para gostar de passarinhos. 
Tenho abundância de ser feliz por isso. 
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios: 

amo os restos, como as boas moscas. 
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto. 
Porque eu não sou da informática: sou da invencionática... 
Só uso a palavra para compor meus silêncios."
Manoel de Barros



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